O senador Plínio Valério (PSDB), candidato à reeleição pelo Amazonas, afirmou que pretende “continuar desrespeitando” Marina Silva ao ser questionado sobre a forma como se dirige à ex-ministra do Meio Ambiente. A declaração ocorreu durante entrevista em que o parlamentar voltou a defender sua postura de confronto com Marina e relacionou as críticas que recebe à atuação de organizações não governamentais (ONGs) e veículos de imprensa.
As declarações foram dadas em entrevista ao jornalista Breno Cabral, da Rede Amazônica, em espaço dedicado aos candidatos ao Senado pelo Estado.
“Eu vou continuar desrespeitando a ministra. Enquanto ela não pedir desculpa para a população do Amazonas”, disse Plínio, depois de ser questionado se a maneira dura como trata Marina contribui para a fiscalização da política ambiental ou desvia o debate de questões consideradas relevantes para o estado.
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Ao ser perguntado de que forma esse comportamento agregaria ao Amazonas, o senador respondeu: “Não interessa, cara. Eu tô no Amazonas para defender o Amazonas e os amazonenses. Quem vai votar em mim sabe que eu sou assim. E quem sabe que eu sou assim e não gostar, não vota em mim”, disse, sem responder ao questionamento.
O embate tem como pano de fundo a BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho. Plínio sustenta que Marina desrespeitou a população amazonense ao afirmar, durante discussão anterior sobre a estrada, que não se constrói uma rodovia de centenas de quilômetros em área de floresta “apenas para passear de carro”. A declaração de Marina foi registrada durante depoimento na CPI das ONGs, em novembro de 2023. Posteriormente, Plínio passou a usar a frase como um dos principais argumentos de suas críticas à então ministra.
Na entrevista, o senador voltou ao episódio para justificar a própria postura, considerada misoginia por parte dos representantes políticos. “Ela disse que você e eu não temos direito ao Estado só para passear. Isso não é desrespeito não?”, questionou.
Histórico de confronto
Não é a primeira vez que o tratamento dispensado por Plínio a Marina gera reação pública. Em maio de 2025, durante audiência da Comissão de Infraestrutura do Senado, o parlamentar afirmou que “a mulher merece respeito, a ministra não”. Marina exigiu que ele se desculpasse. Plínio recusou, e a então ministra deixou a audiência após o confronto.
O episódio provocou críticas dentro do próprio Senado. Parlamentares da base governista classificaram o tratamento dispensado a Marina como machista e misógino. O senador Randolfe Rodrigues (PT) afirmou, na ocasião, que o debate havia ultrapassado a divergência política e apontou “traços de misoginia e machismo”. Outros senadores defenderam Plínio e negaram que ele tivesse agido de forma discriminatória.
Plínio rejeitou as acusações. No plenário, classificou as críticas como tentativa de “lacrar” e afirmou que não é obrigado a respeitar uma ministra que, na avaliação dele, não respeita a população do Amazonas.
A controvérsia também chegou ao Conselho de Ética do Senado. Uma representação apresentada contra Plínio e o senador Marcos Rogério (PL-RO) apontou declarações consideradas de “teor discriminatório e misógino” durante a audiência com Marina.
BR-319 e oposição às ONGs
A postura de Plínio contra Marina integra uma agenda mais ampla do senador contra organizações ambientalistas que questionam projetos de infraestrutura na Amazônia.
Plínio presidiu a CPI das ONGs no Senado, instalada em 2023 para investigar recursos recebidos e a atuação de organizações não governamentais na Amazônia. Desde então, tem associado parte dos obstáculos à reconstrução da BR-319 à atuação dessas entidades.
Em abril deste ano, o senador voltou a atacar organizações ambientais depois que uma decisão da Justiça Federal suspendeu temporariamente processos ligados às obras na rodovia a pedido do Observatório do Clima. Em pronunciamento no Senado, acusou entidades ambientalistas de criar entraves ao desenvolvimento da região e voltou a defender o asfaltamento da estrada.
A controvérsia em torno da BR-319, entretanto, não se resume a uma oposição entre ambientalistas e a construção da estrada. O principal debate envolve as condições para a reconstrução e pavimentação do trecho do meio da rodovia e as exigências do licenciamento ambiental.
Marina Silva tem defendido que a obra seja acompanhada de estudos ambientais e de medidas capazes de conter efeitos associados à abertura do acesso terrestre, especialmente o avanço do desmatamento sobre áreas preservadas e terras indígenas. Em 2025, a Agência Senado registrou que a então ministra defendia estudos adicionais para avaliar esses impactos, posição criticada por Plínio.
O senador, por sua vez, apresenta a BR-319 como uma questão de mobilidade, abastecimento e integração do Amazonas ao restante do país. Em diferentes pronunciamentos, afirma que exigências ambientais, decisões judiciais e ações de organizações não governamentais têm retardado uma infraestrutura que considera indispensável ao estado.
Na entrevista mais recente, Plínio ampliou as críticas ao responder aos questionamentos sobre sua conduta. “Isso é coisa das ONGs, isso é coisa da Globo, da Veja”, afirmou, antes de reclamar que não gosta quando sua “voz é calada”. A afirmação grosseira se deu ao término do tempo concedido a ele para respostas, e que foi pré-definido pela emissora em reunião com representantes dos partidos e candidato.
Ao declarar em plena campanha que pretende “continuar desrespeitando” Marina, o candidato à reeleição deixa claro que não pretende moderar um confronto que já marcou sua atuação no Senado e que mistura duas frentes recorrentes de seu mandato: a defesa da BR-319 e a ofensiva contra Marina Silva e organizações ligadas à pauta ambiental.






