Vazamento de estireno em Manaus: partículas químicas atingiram igarapé e solo; estudo vai dimensionar contaminação e impactos ambientais

Fissuras na bacia de contenção dos tanques que armazenam estireno líquido na petroquímica Videolar-Innova, localizada no Distrito Industrial de Manaus, zona Sul da capital, permitiram que partículas do produto químico alcançassem um igarapé e o solo durante o vazamento de gás tóxico registrado na última quarta-feira (15) e que perdura neste sábado, 18. A informação foi confirmada pelo analista ambiental e químico da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmas), Armando Andrade.

Segundo o especialista, a água utilizada no resfriamento do tanque responsável pela emissão do gás tóxico ficou acumulada na bacia de contenção. Em razão das fissuras identificadas pela equipe técnica, parte desse volume escoou para um igarapé localizado nas proximidades da indústria, transportando partículas de estireno. O solo da área também foi atingido.

A extensão da contaminação ainda será determinada por estudos técnicos que irão calcular o volume de partículas dispersas e avaliar os impactos ambientais provocados pelo incidente.

Em entrevista a um telejornal local, Armando Andrade explicou que a água acumulada na bacia de contenção deverá ser drenada posteriormente para receber a destinação ambientalmente adequada, uma vez que apresenta elevada concentração de partículas de estireno.

O resfriamento do tanque continua sendo realizado por brigadistas do Distrito Industrial e equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), com apoio de caminhões-pipa disponibilizados pela Semmas e pela própria empresa. De acordo com a estimativa apresentada pelo órgão, cerca de 5 mil metros cúbicos de água já foram empregados na operação.

O analista explicou ainda que o estireno liberado inicialmente se dispersou na atmosfera e, por ser um composto mais denso que o ar, voltou a se concentrar próximo ao solo, atingindo áreas vizinhas à fábrica e provocando sintomas de intoxicação na população exposta.

Leia também: Ministério Público apura responsabilidades por vazamento de estireno no Distrito Industrial, em Manaus

“Pela concentração que estava na atmosfera, parte foi para os igarapés e parte foi para o solo”, afirmou Armando Andrade. Os estudos ambientais deverão apontar a quantidade de partículas liberadas e os danos causados aos ecossistemas afetados.

Neste domingo (19), o vapor emitido pelo tanque apresentava concentração significativamente menor de estireno e maior presença de vapor d’água. Segundo o Corpo de Bombeiros, a mistura é composta por aproximadamente 20% de estireno e 80% de água, resultado do trabalho contínuo de resfriamento.

Conforme a Semmas, quanto menor a temperatura do tanque, menor é a emissão do composto químico. A expectativa é de que a situação seja completamente estabilizada na próxima segunda-feira (20).

Entenda o caso

Na quarta-feira (15), um dos tanques de armazenamento de estireno líquido da petroquímica Videolar-Innova registrou aumento anormal de pressão, o que provocou o acionamento automático das válvulas de segurança e a liberação de gás estireno na atmosfera. Segundo o Corpo de Bombeiros, o mecanismo evitou uma explosão na unidade industrial.

Pelo menos 211 pessoas, entre trabalhadores do Distrito Industrial e moradores da região, procuraram atendimento médico com sintomas de intoxicação e outros efeitos associados à exposição ao produto químico. A morte de um paciente oncológico que buscou assistência médica após o incidente é investigada pelas autoridades para verificar eventual relação com o vazamento.

Neste sábado (18), o Corpo de Bombeiros entrou no quarto dia consecutivo da operação de resfriamento do tanque. Após a estabilização da ocorrência, será realizada uma perícia para identificar as causas do incidente e apurar eventuais responsabilidades. O Ministério Público do Amazonas (MPAM) também instaurou procedimento para acompanhar o caso.

A Prefeitura de Manaus aplicou, por meio da SemmasClima, duas multas que, somadas, totalizam quase R$ 10 milhões. Inicialmente, o município informou que uma das autuações havia sido motivada por fissuras no tanque de armazenamento identificadas por drones equipados para operar em ambientes de alta temperatura. Posteriormente, a informação foi corrigida: as fissuras estavam na bacia de contenção que abriga os tanques de estireno e não no tanque que apresenta vazamento de gás.

Leia também: Videolar Innova recebe nova multa após vazamento de gás em Manaus e valores aplicados por irregularidades somam quase R$ 10 milhões

Segundo a prefeitura, os recursos provenientes das multas serão destinados ao Fundo Municipal de Meio Ambiente.

O Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus mantêm forças-tarefas para monitorar a ocorrência e adotar as medidas necessárias. Participam da operação as Defesas Civis, secretarias de Saúde, Corpo de Bombeiros, Semmas e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), que também realizará perícia para avaliar a existência de danos ambientais e eventual aplicação de sanções administrativas.

Em nota, a Videolar-Innova informou que o incidente ocorreu em um dos tanques de monômero de estireno da Unidade 4 da fábrica e foi provocado por uma reação química espontânea que elevou a pressão interna do equipamento, acionando automaticamente as válvulas de segurança. A empresa afirmou ainda que não houve danos ambientais decorrentes do vazamento.

Suframa se pronuncia

Uma comitiva da Superintendência da Zona Franca de Manaus esteve na Innova na sexta-feira (17), no Distrito Industrial, zona Sul de Manaus. O objetivo da agenda foi verificar a situação do local após o incidente, por conta do vazamento de estireno, substância inflamável e tóxica. A reunião serviu para que fossem feitas atualizações e novos esclarecimentos, além das medidas tomadas até o momento sobre o incidente.

Em nota, a Superintendência da Zona Franca de Manaus informou que, no âmbito de sua função institucional, a Suframa exige nas vias adequadas as informações circunstanciadas sobre as medidas de contenção adotadas e sobre os efeitos da ocorrência na regularidade do projeto aprovado e nas condições de uso do lote.

“É preciso ressaltar que o Distrito Industrial de Manaus é espaço de competências compartilhadas e o protocolo de atuação a esse sinistro exige atuação coordenada das entidades públicas federais, estaduais e municipais. Cabe à Suframa a administração dos incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus, a análise dos projetos industriais e a gestão dos lotes de sua propriedade. A operação segura das instalações é obrigação da empresa, nos termos das licenças que detém e a apuração das causas e suas decorrências sanitárias, ambientais e de saúde ao trabalhador exigem apuração pelos órgãos e vias competentes, dos quais os resultados a Suframa atuará e acompanhará integralmente”, afirma trecho da nota.

Foto: divulgação Semmas

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