A mortalidade materna voltou a avançar no Amazonas em 2026 e atingiu o maior patamar registrado no estado desde o período crítico da pandemia de Covid-19. De janeiro a agosto deste ano, o indicador chegou a 91,5 óbitos por 100 mil, contra 67,3 em todo o ano de 2025, crescimento de 36%. Os dados são da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas – Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), a partir de informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Núcleo de Sistemas de Informação (Nusi) e da Diretoria de Planejamento, Emergências em Saúde Pública e Ações Estratégicas (Diplae).

Em números absolutos, foram 40 mortes maternas nos oito primeiros meses de 2026. Durante os 12 meses de 2025, o Amazonas contabilizou 51. A comparação histórica mostra que o indicador deste ano só fica abaixo dos registrados em 2020 e 2021 dentro da série iniciada em 2019. Em 2021, no auge da pandemia, foram 124 mortes e o índice chegou a 156,1 por 100 mil, o maior de todo o período analisado.
Depois disso, houve uma queda acentuada: o indicador passou para 71,4 em 2022, subiu para 89,1 em 2023 e caiu para 60,6 em 2024. Em 2025, voltou a crescer, alcançando 67,3. Agora, em apenas oito meses de 2026, chegou a 91,5. De acordo com a FVS, janeiro foi o mês mais crítico deste ano, com 11 mortes maternas.
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Mulheres pardas e indígenas concentram 85% das mortes
Os dados também revelam uma forte concentração dos óbitos entre mulheres pardas e indígenas. Das 40 mortes registradas em 2026, o levantamento aponta que 23 ocorreram entre mulheres pardas, o equivalente a 57,5% do total. Mulheres indígenas aparecem em seguida, com 11 mortes, ou 27,5%.

Somados, os dois grupos representam 34 das 40 mortes maternas registradas no Amazonas neste ano, o equivalente a 85% do total. A maior concentração também está entre mulheres de 30 a 39 anos. Foram 17 mortes nessa faixa etária, correspondentes a 42,5% dos registros. Entre mulheres de 20 a 29 anos, ocorreram outras 13 mortes, ou 32,5%. O grupo foi o segundo maior em número de óbitos. Juntas, essas duas faixas etárias concentram três em cada quatro óbitos maternos registrados no estado em 2026.
Eclâmpsia lidera causas
A maior parte das mortes ocorreu dentro de unidades hospitalares. Dos 40 óbitos registrados até agosto, 35, ou 87,5%, aconteceram em hospitais.
Entre as causas apresentadas nas estatísticas, a eclâmpsia aparece com maior participação, respondendo por 22,5% das mortes. Na sequência estão hemorragias durante e após o parto, com 12,5%, e hipertensão materna, com 10%.
Os abortos correspondem a 7,5% dos registros. Anormalidades da contração uterina, infecção puerperal e descolamento prematuro de placenta aparecem com 2,5% cada. Outros 40% estão agrupados, pela classificação CID-10, como “demais causas maternas”.
Manaus
A capital, Manaus, registrou 16 das 40 mortes maternas contabilizadas no Amazonas entre janeiro e agosto, o equivalente a 40% do total estadual. Para a capital, o indicador informado é de 76,4 por 100 mil. Os números mostram que a maior parte das mortes, portanto, ocorreu fora de Manaus: 24 dos 40 registros, ou 60% deles, foram no interior.
Evolução
Em 2019, o Amazonas contabilizou 60 mortes maternas e um indicador de 72,9 por 100 mil. Em 2020, primeiro ano da pandemia, foram 74 mortes e índice de 97,3.
O cenário se agravou em 2021, quando o número de mortes saltou para 124 e o indicador atingiu 156,1. No ano seguinte, caiu para 54 mortes e 71,4 por 100 mil.
Em 2023, foram 65 mortes e índice de 89,1. Em 2024, o estado apresentou o menor resultado da série, com 42 mortes e 60,6 por 100 mil. Já em 2025 foram 51 óbitos e indicador de 67,3.
Falhas na assistência e desigualdade estão entre fatores ligados à mortalidade materna
Estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que a mortalidade materna está relacionada não apenas às complicações da gravidez, do parto e do puerpério, mas também a problemas no acesso e na qualidade da assistência. Entre os fatores identificados estão pré-natal insuficiente, demora no diagnóstico e tratamento, dificuldades no encaminhamento de gestantes de risco e falhas na assistência durante o parto.
Pesquisas da Fiocruz destacam que grande parte dessas complicações pode ser prevenida ou tratada quando há acompanhamento adequado durante a gestação e atendimento oportuno no parto e no pós-parto. Os estudos também relacionam a mortalidade materna às desigualdades sociais e raciais, com diferenças associadas a fatores como renda, escolaridade, raça e dificuldade de acesso aos serviços de saúde.






