Médica afastada após denúncia de professora nega perseguição política e diz que paciente recusou atendimento

A médica Marilene Maia Rios, afastada temporariamente da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) José Rodrigues após ser denunciada pela professora Helma Sampaio por perseguição política durante uma consulta, negou ter se recusado a atender a paciente por ela ter votado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em nota de esclarecimento, a profissional apresenta uma versão diferente para o episódio ocorrido na noite de segunda-feira (26), em Manaus, e afirma que foi Helma quem decidiu interromper o atendimento após as duas revelarem suas preferências eleitorais.

O posicionamento, divulgado na quarta-feira (28), é a primeira manifestação pública de Marilene desde que o caso ganhou repercussão. Até então, a versão conhecida era a apresentada por Helma e a manifestação da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), que informou o afastamento temporário da médica enquanto sua conduta é apurada.

Leia também: Professora denuncia médica por perseguição política após revelar voto em Lula durante atendimento em UPA de Manaus

Na nota, Marilene reconhece que houve uma conversa sobre as eleições durante a consulta e confirma que perguntou em quem Helma havia votado. A médica, no entanto, nega que tenha usado a preferência política da paciente para discriminá-la ou interromper a assistência.

Segundo a profissional, Helma chegou à UPA José Rodrigues com alteração da pressão arterial e relacionou o nervosismo às eleições. Marilene afirma que, ao colher a história clínica, percebeu que a paciente estava “agitada, nervosa e exaltada” e procurou saber o que havia provocado aquele estado.

A médica relata que Helma disse acreditar que seu candidato perderia a eleição. Foi nesse contexto, segundo sua versão, que perguntou em quem a professora havia votado. Ao ouvir que a escolha havia sido Lula (PT), Marilene afirma ter dito que Helma deveria estar feliz porque seu candidato havia vencido.

Marilene também confirma que informou à paciente ter votado no outro candidato à Presidência.

Segundo a médica, ela disse que a eleição havia terminado e que a vida deveria seguir normalmente. A partir desse momento, porém, as versões das duas envolvidas divergem sobre quem provocou a ruptura do atendimento e sobre a forma como a discussão se desenvolveu.

Marilene afirma que, depois de revelar seu voto, Helma se levantou e não quis mais continuar sendo atendida por ela. Segundo a nota, a professora teria afirmado que queria ser atendida por uma “médica de verdade” e perguntado repetidamente se Marilene era médica.

A profissional sustenta ainda que não publica manifestações político-partidárias em suas redes sociais e que a referência à própria escolha eleitoral ocorreu exclusivamente dentro da conversa mantida durante a consulta.

Helma diz que comportamento mudou após revelar voto em Lula

A versão apresentada pela médica se contrapõe diretamente ao relato feito por Helma Sampaio.

A professora, que é coordenadora administrativa do Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus, contou que procurou a UPA com a pressão arterial alterada e mencionou durante a consulta que estava ansiosa em razão das eleições realizadas no domingo (25).

Segundo Helma, após ela informar que havia votado em Lula (PT), a médica mudou o comportamento, passou a agir com arrogância e fez comentários ofensivos sobre o candidato vencedor.

Helma também relatou que perguntou à profissional se ela continuaria a consulta e se era médica. Segundo a professora, Marilene respondeu ironicamente: “Não, sou faxineira”.

A professora afirma que, diante da situação, decidiu que não queria mais continuar sendo atendida por Marilene. Segundo seu relato, a médica passou então a acusá-la de tê-la chamado de “faxineira”, o que Helma nega.

A professora também declarou que fotografou a profissional e que Marilene ameaçou quebrar seu celular. A médica não aborda especificamente essa acusação na nota divulgada agora.

Helma disse ainda que a discussão agravou seu estado de saúde, com aumento da pressão arterial e tremores, e que outros profissionais da UPA prestaram auxílio antes de ela ser encaminhada para atendimento com outra médica. Posteriormente, registrou boletim de ocorrência sobre o episódio.

Na nota, Marilene afirma que a assistência à paciente já havia sido iniciada e teve continuidade com outra médica de plantão. Para sustentar seu posicionamento, cita o artigo 36, parágrafo 1º, do Código de Ética Médica, que prevê situações em que o profissional pode renunciar ao atendimento, desde que comunique previamente a decisão, assegure a continuidade dos cuidados e forneça as informações necessárias ao profissional que o suceder.

Marilene sustenta que o encaminhamento buscou preservar a assistência à paciente e nega que tenha ocorrido recusa de atendimento por preferência política.

SES afastou médica para apurar conduta

Após a denúncia vir a público, a SES-AM informou que Marilene seria temporariamente afastada de suas funções até a conclusão da apuração e da avaliação de sua conduta.

A secretaria afirmou que a relação entre pacientes e profissionais de saúde deve ser orientada por ética, respeito e dignidade e classificou como inadmissíveis condutas que violem esses princípios. A pasta também orientou que a denúncia seja formalizada pelos canais da Ouvidoria.

A própria UPA José Rodrigues mantém serviço de Ouvidoria para registro de denúncias, reclamações e pedidos de esclarecimento relacionados ao atendimento em saúde. No entanto, ao buscar a Ouvidoria, a professora alega que o responsável estava de férias. 

Médica avalia medidas judiciais

Marilene também afirma que pretende buscar, por meio de sua assessoria jurídica, a apuração de responsabilidades relacionadas às declarações e publicações feitas após a repercussão do caso.

Segundo a nota, a profissional avalia a adoção de medidas cíveis e criminais caso sejam identificadas falsidades, ofensas ou abusos. Ela pede ainda que veículos de comunicação apresentem seu posicionamento e diferenciem a denúncia feita pela paciente de fatos efetivamente comprovados.

A médica informa que documentos de saúde e informações clínicas detalhadas de Helma serão preservados em respeito ao sigilo médico e poderão ser apresentados pelos meios adequados, quando necessário.

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