A candidata ao Governo do Amazonas, Maria do Carmo Seffair (PL), da coligação Mudar é Urgente (PL/Novo), minimizou, nesta segunda-feira (14), a relação entre as secas e cheias enfrentadas pelo estado e a crise climática. Durante entrevista ao JAM1, da Rede Amazônica, afiliada da Globo, a bolsonarista afirmou que convive com esses fenômenos durante toda a vida e associou uma situação de crise climática no Amazonas à ocorrência de eventos considerados por ela “surreais”, como tufões, furacões e nevascas.
A declaração ocorreu durante a sabatina “Eleições na Globo”, após a candidata ser questionada sobre uma afirmação do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), seu aliado. Segundo a jornalista Lane Gusmão, Flávio havia defendido, em entrevista à Globo, investimentos em saneamento básico como a solução para os eventos climáticos ao ser questionado sobre meio ambiente.
Gusmão lembrou ainda que agosto registrou temperaturas mais elevadas da história e questionou Maria do Carmo sobre a crise climática e os eventos extremos. “Quando tem seca e cheia, a gente não tá falando de crise climática. Eu digo, crise climática aqui no Amazonas seria tufões, furacões, cair nevasca, algo surreal”, respondeu Maria do Carmo.
Sem propostas para o meio ambiente que ajudem a frear o avanço da crise climática, a candidata argumentou que as oscilações dos rios fazem parte de uma realidade conhecida pelos moradores do Amazonas e que o poder público deveria concentrar esforços na preparação para esses períodos. “Na verdade a gente tem as secas e as cheias (…) Eu pelo menos na minha vida inteira eu convivi com isso. O que a gente precisa é estar preparado a cada ano pra poder dar suporte pra população ribeirinha”, declarou.
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Maria do Carmo utilizou uma visita realizada no domingo (13) a Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, no interior do Amazonas, para exemplificar o problema. Segundo ela, durante a passagem pelo município precisou percorrer uma longa distância por estruturas de madeira em razão do nível do rio.
A candidata disse ter enfrentado situação semelhante no ano anterior e questionou por que o poder público não estabelece soluções permanentes para reduzir as dificuldades enfrentadas pela população durante as secas. “Ontem eu vi e falei: meu Deus, nós temos todos os anos esse fenômeno da seca e da cheia. Por que não pensamos em soluções que facilitem a vida das pessoas?”, afirmou.
Entre as medidas mencionadas por Maria do Carmo estão a construção de passarelas permanentes em substituição às estruturas provisórias de madeira e a adoção de equipamentos simples para facilitar o transporte de mercadorias quando o nível dos rios está baixo. A candidata citou como exemplo a possibilidade de instalação de roldanas para evitar que moradores tenham de transportar cargas manualmente por longos trajetos.
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Na entrevista, Maria do Carmo também afirmou que observa preservação da floresta quando percorre o interior do Amazonas. “Eu vejo que hoje no nosso interior, principalmente onde falam da preservação, a gente vê que a floresta é preservada, a gente não vê danos”, declarou.
Crise climática já altera extremos na Amazônia
A avaliação de Maria do Carmo Seffair (PL) de que secas e cheias não representam uma crise climática contrasta com evidências científicas sobre as mudanças em curso na Amazônia. Embora períodos de cheia e vazante façam parte do ciclo natural dos rios, pesquisadores apontam que o aquecimento global está alterando a intensidade dos extremos. Um estudo publicado em 2026 na revista Scientific Reports, que analisou as secas na Bacia Amazônica entre 1980 e 2024, concluiu que houve uma mudança no padrão desses eventos no século 21: o aumento das temperaturas, associado às mudanças climáticas, passou a exercer papel central na intensificação das secas excepcionais. A estiagem de 2023/2024 foi considerada sem precedentes no período analisado e atingiu 88% da bacia.
Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, também mostram que as secas se tornaram mais frequentes e intensas no Brasil a partir de 1990. Na Amazônia, o órgão destaca os episódios extremos de 2005, 2010, 2015/2016 e 2023/2024 e aponta que a última seca foi agravada não apenas pela falta de chuva, mas pelas temperaturas excepcionalmente altas. No oeste do Amazonas e no Acre, municípios permaneceram sob condições de seca por períodos prolongados entre 2023 e 2024.
Pesquisadores que acompanham o clima amazônico ressaltam ainda que fenômenos naturais, como o El Niño e o aquecimento do Atlântico Tropical Norte, podem reduzir as chuvas na região e atuar em conjunto com um planeta mais quente. Ou seja, a existência histórica de secas e cheias não contradiz a crise climática: o que preocupa a ciência é justamente a mudança na frequência, intensidade e impacto desses extremos. Em 2023, o meteorologista Renato Senna, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), já apontava que a velocidade de descida do rio Negro estava fora dos padrões observados anteriormente, em meio a uma combinação anormal de condições nos oceanos Pacífico e Atlântico.






