Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram uma forte escalada dos focos de queimadas em parte da Amazônia em 2026, com aumentos expressivos no Amapá, Amazonas, Pará e Roraima. O avanço ocorre enquanto Manaus enfrenta sucessivos dias encoberta por fumaça e Roraima entra em alerta diante da intensificação da estiagem e do risco de incêndios.
Segundo a tabela anual comparativa do Programa Queimadas do Inpe, entre 1º de janeiro e 7 de outubro, o Amapá registrou 507 focos de queimadas, contra 144 no mesmo período de 2025. O salto é de 252%, a maior alta percentual entre os estados brasileiros apresentada no levantamento.
No Amazonas, o número praticamente dobrou. Foram 6.901 focos entre janeiro e 7 de outubro deste ano, ante 3.559 no mesmo intervalo de 2025, crescimento de 94%.

O Pará apresenta cenário semelhante: passou de 7.123 registros em 2025 para 13.768 neste ano, avanço de 93%. Em Roraima, foram contabilizados 2.035 focos, contra 1.094 no ano passado, aumento de 86%. Os números colocam quatro estados da Amazônia entre aqueles com os maiores aumentos percentuais do país.
Na Amazônia Legal, o Inpe contabilizou 49.622 focos de queimadas até 7 de outubro, contra 42.642 no mesmo período de 2025, aumento de 16%.
Amazonas tem alta de 94% e Manaus vive dias sob fumaça
A escalada das queimadas no Amazonas já produz efeitos perceptíveis na capital e no interior. Manaus vem enfrentando sucessivos episódios de fumaça desde setembro e amanheceu novamente encoberta nesta quinta-feira (8). Itacoatiara vive realidade semelhante, com a pior qualidade do ar do país e uma densa fumaça encobrindo a localidade.
Na noite de quarta-feira (7), a Defesa Civil de Manaus informou que a concentração média de partículas finas MP2,5 havia alcançado 114,6 microgramas por metro cúbico (µg/m³), nível classificado como “muito ruim”. Segundo a prefeitura, a fumaça era proveniente principalmente de queimadas em Itacoatiara, Careiro da Várzea, Manaquiri e Autazes.
Nesta quinta, a fumaça persistiu. Às 8h50, a concentração média de MP2,5 estava em 73,65 µg/m³, ainda classificada como “ruim”. A prefeitura informou que, naquele momento, a fumaça que chegava à capital tinha origem principalmente em queimadas na região metropolitana, com destaque para Itacoatiara.
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Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), chegaram a apontar durante a madrugada concentração alta de particulas de 490,1 µg/m³ de MP2,5 em um dos pontos de monitoramento da cidade, o pior índice registrado em Manaus neste ano.
A situação levou instituições de ensino superior a suspenderem atividades presenciais nesta quinta. A fumaça também coincide com incêndios de grandes proporções registrados na capital. Um deles atinge uma área de vegetação e descarte de resíduos no Distrito Industrial 2 e queimou materiais como plásticos, borrachas, papéis, solventes e tonéis, produzindo uma extensa coluna de fumaça. O incêndio está controlado pelo Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBM-AM), mas, ainda não foi completamente extinto.
O problema já havia chamado a atenção dos órgãos de controle antes do episódio desta semana. Na quarta-feira, o Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM) informou que levou ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) uma representação para apurar a eficiência das ações estaduais de combate às queimadas e à fumaça.
Segundo o MPC-AM, dados do Inpe apontaram 3.240 focos no Amazonas somente entre 1º e 22 de setembro, ante 942 no mesmo período de 2025, crescimento de aproximadamente 244%. O órgão questiona se as ações do Estado têm dimensão e capacidade operacional compatíveis com a gravidade do problema.
Roraima tem alta de 86% e Bombeiros entram em alerta
Em Roraima, os 2.035 focos registrados até 7 de outubro representam crescimento de 86% em relação aos 1.094 contabilizados no mesmo período de 2025. O número deste ano também está 14% acima da média indicada pelo Inpe, de 1.784 focos.
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A alta coincide com o agravamento da estiagem no estado. O Corpo de Bombeiros Militar de Roraima (CBMRR) e a Defesa Civil estadual entraram em alerta máximo após dois incêndios de grandes proporções registrados na quarta-feira (7), na zona rural de Boa Vista.
Um incêndio ameaçou a região das granjas do Monte Cristo pela manhã. À tarde, outro atingiu o assentamento Passarão. Segundo o CBMRR, 23 ocorrências de incêndio foram atendidas entre os dias 5 e 8 de outubro.
O quadro de seca ajuda a dimensionar o risco. Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que a estiagem vem se intensificando em Roraima desde julho. Em setembro, 11 municípios estavam em situação de seca severa, contra três no mês anterior. No Amazonas, a quantidade de municípios nessa condição passou de quatro para 13.
Região Norte contraria queda nacional
Entre janeiro e 7 de outubro, os sete estados da região Norte acumularam 34.167 focos, contra 24.433 no mesmo intervalo de 2025. O aumento foi de 40%. No Brasil, ocorreu movimento inverso: o total caiu de 84.896 para 76.378 focos, redução de 10%.
Outras regiões apresentaram quedas ainda mais acentuadas. O Centro-Oeste passou de 15.885 para 12.530 focos, redução de 21%. No Nordeste, a queda foi de 24%, de 30.262 para 22.853. No Sudeste, os registros caíram 52%, de 10.070 para 4.880, enquanto o Sul teve redução de 54%, de 4.246 para 1.948.
Entre os estados fora da Região Norte, Alagoas também aparece na contramão da tendência nacional, com crescimento de 105%, passando de 127 para 260 focos. Sergipe registrou aumento de 12%, de 136 para 152, e o Rio Grande do Norte teve alta de 3%, de 261 para 268.
Na outra ponta, São Paulo registrou uma das maiores reduções: de 2.204 focos em 2025 para 575 neste ano, queda de 74%. Goiás recuou 55%, Minas Gerais 49%, Paraná 60% e Rio Grande do Sul 56%.
Bioma Amazônia
De acordo com o Inpe, o bioma Amazônia registrou 33.240 focos entre janeiro e 7 de outubro deste ano. No mesmo período de 2025, haviam sido contabilizados 22.673. O crescimento foi de 47% em um ano.

O Cerrado caiu 31%, de 42.080 para 29.002 focos. A Caatinga teve redução de 19%, de 9.026 para 7.326, enquanto a Mata Atlântica recuou 40%, de 10.014 para 6.049. No Pampa, a queda chegou a 57%, de 632 para 274 ocorrências. O Pantanal foi a única exceção além da Amazônia, com pequena alta de 3%, passando de 471 para 487 focos.
O Amazônia Plural procurou o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e autoridades estaduais para solicitar informações sobre as medidas adotadas diante do aumento dos focos de queimadas na Amazônia e sobre as ações de prevenção e combate aos incêndios. Até a publicação desta matéria, não houve retorno.
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