A Polícia Civil do Amazonas indiciará a médica Juliana Brasil e da técnica de enfermagem Raiza Bentes por homicídio com dolo eventual, decorrente da morte do menino Benício Xavier, de 6 anos, em novembro de 2025, no Hospital Santa Júlia, em Manaus. Conforme a polícia, a criança foi vítima de erro médico e sofreu uma overdose de adrenalina intravenosa, aplicada de forma equivocada, quando a indicação era por nebulização. Dois diretores do hospital também devem ser indiciados por homicídio culposo, quando na há intenção de matar.
O inquérito policial que apura o caso foi concluído na última semana, pelo 24º Distrito Integrado de Polícia (24º DIP), sob a coordenação do delegado titular Marcelo Martins. Ao todo, 39 pessoas foram ouvidas. Se a denúncia for aceita na Justiça, as profissionais de saúde podem ir a Júri Popular.
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“Em nenhum momento a gente nota um sentimento de pesar ou de lamentação por parte da Juliana Brasil e relação ao Benício”, afirmou o delegado, em entrevista ao Fantástico, da Rede Globo de televisão. A matéria foi exibida neste domingo.
De acordo com o inquérito, após prescrever a adrenalina errada, a médica não conferiu a prescrição, antes de entregar à mãe. Já a técnica de enfermagem, segundo as investigações, ignorou o alerta da mãe do menino, que disse que ele nunca havia tomado adrenalina intravenosa. Ela também ignorou outra colega do posto de enfermagem do Santa Júlia, que havia preparado um kit de inalação para o menino, não fazendo a dupla checagem, como recomenda o protocolo de segurança do paciente.
Peritos que atuaram no caso atestaram que a morte ocorreu por overdose de adrenalina, mediação que atua no sistema nervoso central. A dose aplicada na criança é superior à indicada para um adulto com parada cardiorrespiratória, quadro que ele não apresentava.
Ainda segundo o inquérito, a médica Juliana Brasil atuou de várias formas para se desvincular do ocorrido, apresentando, inclusive, um vídeo adulterado à Justiça, que comprovaria que o sistema de gestão hospitalar do Santa Júlia havia mudado a prescrição de nebulização para intravenosa, o que levou a polícia a pedir seu indiciamento por fraude processual. Ela também responderá por falsidade ideológica, já que se apresentava como pediatra, sem dispor da especialização.
O delegado Marcelo Martins afirma que provas colhidas durante as investigações mostram que a médica vendia cosméticos por um aplicativo de mensagens enquanto Benício lutava pela vida na Sala Vermelha do Hospital, o que demonstra a indiferença dela quanto ao erro médico.
Já os diretores do hospital serão indicados por homicídio culposo após a constatação, pelo inquéritos, de número insuficiente de profissionais na unidade no dia do atendimento.
O inquérito segue para o Ministério Público do Estado, responsável por apresentar a denúncia formal à Justiça Estadual.
Veja por quais crimes cada investigado responderá :
Raiza Bentes: homicídio doloso com dolo eventual
Juliana Brasil: homicídio com dolo eventual, fraude processual e falsidade ideológica Édson Sarkis Júnior e Antônio (diretores): homicídio culposo
Todos respondem em liberdade. A defesa da médica Juliana Brasil mantém a tese de falha no sistema hospitalar e alega que houve erro no processo de intubação do menino. Também informou que no momento em que a médica negociava cosméticos em um aplicativo de mensagens, já havia ocorrido a troca de plantão e o paciente não estava mais sob sua responsabilidade .
A defesa de Raiza Bentes informou ao Fantástico que ela está afastada das funções e que não pretende retornar à profissão. A defesa apresentará os argumentos na Justiça.
Em nota, o Hospital Santa Júlia disse que, até o momento, não foi oficialmente comunicado acerca do término do inquérito conduzido pela Polícia Civil, nem sobre indiciamento de membros de sua diretoria.
O hospital reforçou que permanece à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos necessários.
Entenda o caso
Benício Xavier de Freitas deu entrada no Hospital Santa Júlia no dia 22 de novembro de 2025, andando e consciente, com quadro de tosse seca e suspeita de laringite.
Ele foi atendido pela médica Juliana Brasil, que não possui especialização em pediatria. Após a consulta, foi prescrita a administração de adrenalina por via intravenosa. A medicação foi aplicada pela técnica de enfermagem Raiza Bentes Paiva, apesar de questionamentos feitos pela mãe da criança.
Após a administração do medicamento, Benício apresentou dor no peito e mal-estar súbito. Ele foi transferido entre setores da unidade até ser encaminhado à UTI, onde sofreu sucessivas paradas cardiorrespiratórias e morreu.
O atestado de óbito foi posteriormente retificado para incluir como causa da morte “intoxicação por drogas que afetam o sistema nervoso central”.
A médica e a técnica de enfermagem foram afastadas de suas funções após a repercussão do caso.






