A concentração de partículas finas no ar de Manaus voltou a atingir níveis críticos nesta segunda-feira (12), em meio à sequência de incêndios que atinge o Amazonas, estado que compõe a Amazônia Legal. Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), mostram estações da capital com concentrações de PM2,5 mais de 500% acima do limite máximo da faixa considerada “boa” pela escala apresentada na plataforma. A poluição derivada da fumaça é considerada tóxica para a população. A orientação é pelo uso de máscaras faciais em caso de exposição.
Na consulta feita às 10h39, uma das estações de Manaus marcava 154,7 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de PM2,5. O Selva considera “boa” a faixa entre zero e 25 µg/m³. Isso significa que a concentração registrada naquele ponto estava 518,8% acima do teto considerado bom.
Outras estações apresentavam 143,4 µg/m³, 138,7 µg/m³, 134 µg/m³, 132,1 µg/m³ e 126 µg/m³. Na comparação com o limite de 25 µg/m³, os valores representam concentrações entre 404% e 473,6% acima do teto da faixa “boa”.
Pela escala exibida pelo Selva, leituras entre 75 e 125 µg/m³ são classificadas como “muito ruins”, e as que ficam entre 125 e 160 µg/m³ são consideradas “péssimas”.
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Os números são leituras de estações específicas e variam conforme o local e o horário.
Ar muda radicalmente em poucas horas
Às 23h33 de domingo (11), estações do Selva espalhadas por Manaus apresentavam concentrações entre 28,7 e 45,7 µg/m³ nos pontos visíveis no mapa, todas na faixa “moderada”. Pouco mais de 11 horas depois, várias estações já haviam avançado para “muito ruim” e “péssima”.
Na estação que registrou 154,7 µg/m³ nesta segunda, por exemplo, a concentração equivale a mais de seis vezes o teto da faixa considerada boa.
O comportamento tem sido recorrente nos últimos dias. Em 8 de outubro, dados do Selva reunidos pelo Ministério Público de Contas apontavam 140,5 µg/m³ em uma estação de Manaus. No interior, naquele mesmo dia, Rio Preto da Eva chegou a 428,8 µg/m³, Careiro a 321,8 µg/m³, Careiro da Várzea a 178,8 µg/m³ e Itacoatiara a 107,2 µg/m³.
A leitura de 107,2 µg/m³ registrada em Itacoatiara correspondia a uma concentração 328,8% superior ao limite de 25 µg/m³ da faixa “boa”. Em Careiro, os 321,8 µg/m³ representavam 1.187,2% acima desse mesmo parâmetro.
No sábado (11), o quadro continuava crítico. Uma consulta feita pela manhã encontrou estações de Manaus entre aproximadamente 78 e 202 µg/m³. Careiro chegou a 307,6 µg/m³, Careiro da Várzea a 204,1 µg/m³ e Itacoatiara ficou em torno de 87 µg/m³.
As concentrações dependem, entre outros fatores, da continuidade das emissões e das condições de dispersão atmosférica.
Amazonas tem 112% mais focos que em 2025
Ao mesmo tempo em que a população enfrenta a fumaça, os dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), mostram um salto no número de focos de calor no Amazonas.
O painel do INPE apresentado neste domingo aponta 7.629 focos em 2026, contra 3.606 no período comparado de 2025. A plataforma calcula crescimento de 112%.
Até 8 de outubro, o acumulado de 2026 estava em 7.039 focos. Naquele momento, o crescimento em relação ao mesmo período de 2025 era de aproximadamente 98%.
Entre 1º e 10 de outubro, outro levantamento, do Painel do Fogo do Censipam, contabilizou 1.380 focos no Amazonas, contra 372 no mesmo intervalo do ano passado, alta de 271%.
540 focos em apenas 48 horas
A captura mais recente do Programa Queimadas do INPE mostra ainda 540 focos no Amazonas no período de 48 horas entre os dias 10 e 11 de outubro. O número coloca o estado muito acima das demais unidades da Federação exibidas no painel: a Bahia aparece em seguida, com 180, e o Acre, com 103.
O gráfico por municípios mostra uma concentração elevada em Autazes, que aparece isoladamente na primeira posição, com mais de 100 focos no período. Itacoatiara ocupa a segunda colocação, seguida por Manaquiri, Manacapuru, Novo Aripuanã, Maués, Careiro e Borba.
A concentração das queimadas em municípios próximos ajuda a explicar a dimensão regional da crise. Desde a semana passada, a própria Prefeitura de Manaus informou que a fumaça sobre a capital tinha origem principalmente em queimadas em Itacoatiara, Careiro da Várzea, Manaquiri e Autazes.
Força-tarefa tenta conter avanço do fogo
O agravamento dos indicadores ocorre enquanto uma força-tarefa atua no Amazonas para tentar controlar os incêndios. O governo federal reconheceu situação de emergência em 36 municípios e mobilizou brigadistas e aeronaves para reforçar a operação.
Segundo informações divulgadas durante a operação, 290 brigadistas federais participam das ações. O reforço aéreo inclui aviões Air Tractor, helicópteros e aeronaves KC-390 da Força Aérea Brasileira, além de outras estruturas mobilizadas para a operação.
Durante sobrevoo realizado no fim de semana, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou ter identificado diversos incêndios em áreas de floresta preservada e apontou indícios de uso criminoso do fogo para degradar a vegetação antes de uma posterior derrubada.
O Governo do Amazonas também redobrou os esforços para o combate aos focos de incêndio na capital e no interior. O apoio federal foi direcionado ao Amazonas após solicitação feita pelo governador Roberto Cidade. Durante o fim de semana, reuniões para alinhar as ações entre os governos foram realizadas de forma a otimizar os trabalhos.






