Estudo aponta que maioria dos brasileiros quer propostas para enfrentar mudanças climáticas nas eleições

A preocupação com as mudanças climáticas entrou na agenda eleitoral dos brasileiros. Pesquisa nacional da Ipsos para o Observatório do Clima, mostra que 91% dos entrevistados consideram importante que os candidatos nas próximas eleições apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Apenas 8% classificam a questão como pouco ou nada importante.

O resultado aparece em um cenário de percepção crítica sobre a atuação do poder público. Segundo o levantamento, 68% concordam com a afirmação de que o governo brasileiro não tem um plano claro para enfrentar as mudanças climáticas, enquanto 11% discordam. A proteção ambiental, ao mesmo tempo, é considerada importante na agenda de governo por 90% dos entrevistados.

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O estudo “Clima e meio ambiente na percepção dos brasileiros” ouviu 1.800 brasileiros com 18 anos ou mais, de todas as regiões do país. A pesquisa foi realizada de forma online, com amostragem não probabilística por cotas, e os resultados foram ponderados conforme macrorregião, sexo e faixa etária, com base no último Censo. O objetivo foi avaliar a percepção da população sobre mudanças climáticas, questões ambientais e o papel do poder público.

Mudança climática já é percebida no cotidiano

Embora as mudanças climáticas e a crise ambiental apareçam apenas na nona posição entre os principais problemas que o Brasil precisa resolver, citadas por 19% dos entrevistados, o cenário muda quando a pesquisa trata especificamente das questões ambientais. Nesse recorte, as mudanças climáticas ocupam o primeiro lugar, apontadas por 35%, à frente da gestão de resíduos e lixo, com 21%; qualidade do ar e poluição, com 15%; e escassez de água e seca, com 14%.

A percepção dos efeitos do fenômeno é ainda mais disseminada. Para 87% dos entrevistados, as mudanças climáticas estão provocando eventos extremos no Brasil, como secas, chuvas intensas e ondas de calor. Outros 85% concordam que elas afetam a vida cotidiana dos brasileiros, enquanto 70% afirmam sentir os impactos no próprio dia a dia.

A pesquisa também identificou disposição para priorizar o enfrentamento da crise mesmo diante de consequências financeiras: 79% concordam que as mudanças climáticas são urgentes a ponto de precisarem ser priorizadas mesmo que isso implique custos econômicos. Ao mesmo tempo, 76% acreditam que ainda há tempo para reverter os piores efeitos se houver ação agora.

Entre os impactos que mais preocupam os brasileiros, as ondas de calor extremas e o aumento da temperatura lideram, com 29%. Chuvas torrenciais e inundações aparecem em seguida, com 22%, e incêndios florestais, com 13%. Impactos na agricultura e na produção de alimentos são mencionados por 11%.

Desmatamento e queimadas lideram prioridades

O combate ao desmatamento e às queimadas aparece como a principal medida apontada pelos entrevistados para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no país, com 41% das respostas. A redução da produção e do consumo de combustíveis fósseis vem em segundo lugar, com 27%, seguida da melhoria da gestão de resíduos e ampliação da reciclagem, com 14%.

Quando questionados sobre quais deveriam ser as prioridades ambientais do governo, 60% indicam o fortalecimento do apoio à agricultura sustentável e o combate ao desmatamento ilegal. A ampliação de projetos de energias renováveis, como solar e eólica, é escolhida por 53%, enquanto 48% defendem investimentos em soluções e infraestrutura de adaptação climática. A expansão da energia solar residencial para reduzir as contas de luz aparece com 41%.

A transição energética também encontra apoio amplo: 86% concordam que o Brasil precisa avançar nas energias solar, eólica e hídrica para eliminar a dependência dos combustíveis fósseis. Para 76%, o país pode atrair mais investimentos e desenvolvimento caso se posicione como líder ambiental na América Latina.

Governos recebem avaliação negativa

Apesar da importância atribuída à atuação estatal, a avaliação sobre o que já é feito é predominantemente negativa. Apenas 24% se dizem satisfeitos com o papel dos governos federal, estaduais e municipais na prevenção e no enfrentamento de desastres climáticos, enquanto 47% estão insatisfeitos.

O levantamento também pediu que os entrevistados avaliassem, em uma escala de 1 a 10, o desempenho ambiental de diferentes atores. O governo brasileiro recebeu avaliação negativa, de 1 a 6, de 71% dos entrevistados e positiva, com notas 9 ou 10, de 9%. As empresas privadas tiveram 75% de avaliações negativas e 6% positivas. Entre as próprias pessoas, 78% das avaliações foram negativas e 6% positivas.

Em relação às normas ambientais, 43% defendem que projetos de investimento devem se adequar às regras atualmente existentes e rejeitam sua flexibilização. Outros 35% admitem mudanças, mas somente se elas não representarem retrocesso na proteção ambiental. Já 15% consideram necessário reduzir as exigências ambientais para estimular a economia.

Atividade humana é apontada como causa

A maioria dos entrevistados, 58%, atribui as mudanças climáticas principalmente à atividade humana. Outros 36% consideram que o fenômeno resulta tanto da atividade humana quanto de fatores naturais. Apenas 5% apontam principalmente fenômenos naturais.

A percepção varia conforme o posicionamento político declarado. Entre os entrevistados identificados com a esquerda, 72% atribuem as mudanças climáticas principalmente à ação humana. O índice é de 61% entre os que se identificam com o centro e de 44% entre os que se declaram de direita.

As diferenças políticas aparecem também na prioridade dada ao tema, mas não eliminam a preocupação ambiental. Nas próximas eleições, por exemplo, a apresentação de propostas climáticas pelos candidatos é considerada importante por 96% dos entrevistados que se identificam com a esquerda, 95% dos que se declaram de centro e 87% dos que se identificam com a direita.

Petróleo na Foz do Amazonas divide opiniões

O estudo também abordou a exploração de petróleo em áreas ambientalmente sensíveis. Questionados especificamente sobre a expansão da produção para novas áreas, com a Foz do Amazonas apresentada como exemplo, 41% concordam com a expansão e 29% discordam.

Em outro ponto relacionado ao setor, há consenso mais amplo sobre a necessidade de reduzir emissões de metano: 93% consideram importante diminuir vazamentos do gás durante a produção e o transporte de petróleo e gás natural. Apenas 4% atribuem pouca importância à medida.

O conjunto dos resultados mostra uma diferença entre a posição ocupada pelo meio ambiente na lista geral de problemas do país e a importância atribuída ao tema quando os brasileiros são questionados diretamente sobre políticas climáticas. Enquanto a crise ambiental disputa atenção com segurança, inflação, saúde e outros problemas imediatos, nove em cada dez entrevistados querem que a proteção ambiental esteja na agenda governamental e que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas nas próximas eleições.

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