Ministério do Meio Ambiente atribui avanço das queimadas no Amazonas ao El Niño e diz que fumaça em Manaus vem de municípios vizinhos

A fumaça que encobre Manaus há vários dias é proveniente majoritariamente de focos de calor registrados em municípios vizinhos localizados ao sul e sudeste da capital, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Em resposta ao Amazônia Plural, nesta quinta-feira (24), a pasta atribuiu o aumento de 85% das queimadas no Amazonas em 2026 às condições meteorológicas mais favoráveis à propagação do fogo, associadas ao El Niño, combinadas às ignições provocadas por atividades humanas.

O posicionamento ocorre após Manaus chegar ao sétimo dia consecutivo sob fumaça e registrar níveis críticos de qualidade do ar. Dados da plataforma Selva, desenvolvida pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), mostraram nesta quinta ao menos quatro estações de monitoramento na classificação “péssima”, com concentrações de material particulado fino (PM2,5) que chegaram a 186,9 microgramas por metro cúbico em um dos pontos monitorados.

O cenário também levou o Conselho Regional de Medicina do Amazonas (Cremam) a emitir alerta à população sobre os efeitos da exposição à fumaça. O órgão recomendou, entre outras medidas, evitar exercícios ao ar livre nos períodos de maior concentração de poluentes e utilizar máscaras PFF2 ou N95 em ambientes externos quando houver elevada concentração de fumaça.

Embora relacione a fumaça principalmente a incêndios em municípios próximos, o MMA ponderou que não é possível determinar, apenas pela localização dos focos, exatamente de onde vem toda a massa de poluentes que chega a Manaus. Segundo o Ministério, uma identificação precisa depende do cruzamento de dados de monitoramento atmosférico com informações meteorológicas e modelos capazes de acompanhar o deslocamento dos poluentes.

Alta de 85%, mas abaixo da média histórica

O MMA confirmou que o Amazonas apresentou crescimento de 85% no número de focos de calor entre 1º de janeiro e 22 de setembro de 2026 na comparação com o mesmo período do ano passado, corroborando dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

A pasta, porém, afirma que a comparação precisa considerar que 2025 apresentou condições “excepcionalmente úmidas”. Quando confrontado com uma série histórica mais longa, de 2012 a 2025, o número de focos de 2026 permanece 47% abaixo da média, segundo o Ministério.

O órgão explica ainda que agosto e setembro apresentam anualmente aumento dos focos de calor por coincidirem com o período de menor quantidade de chuva. As condições de estiagem facilitam a propagação das chamas quando há ignições provocadas por atividades humanas. No Amazonas, o Ministério aponta como áreas mais críticas as regiões ao longo das calhas dos rios Solimões e Amazonas e da BR-230, a Transamazônica.

Setembro concentra mais da metade dos focos do ano

Os números mais recentes do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ajudam a dimensionar a concentração do fogo neste mês. Entre 1º e 23 de setembro, foram registrados 3.259 focos de calor no Amazonas. No acumulado de 2026 até o dia 23, eram 5.790.

Isso significa que 56,3% de todos os focos detectados no estado durante o ano ocorreram somente nos primeiros 23 dias de setembro. Mais da metade do total anual, portanto, ficou concentrada em pouco mais de três semanas. O dia 22 foi o mais crítico do mês até então: 520 focos foram detectados em apenas 24 horas, segundo o INPE.

O levantamento de 48 horas entre os dias 22 e 23 também colocou municípios amazonenses entre aqueles com maior quantidade de focos no país. Novo Aripuanã liderava o ranking apresentado pelo Inpe, enquanto Manicoré, Humaitá e Autazes também apareciam entre os dez primeiros.

A situação do Amazonas foi discutida na quarta-feira (23) durante reunião do Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman), coordenado pelo Ibama e integrado por órgãos federais e estaduais. Segundo o MMA, um representante da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema-AM) participou da reunião.

Meteorologistas alertaram para a combinação de altas temperaturas, baixa umidade relativa do ar e ventos fortes. Os três fatores aumentam as condições para que um incêndio se espalhe com maior facilidade. De acordo com o MMA, há previsão de chuvas e, consequentemente, de redução do perigo de fogo nos próximos dias. O Ministério ressalta, entretanto, que o cenário pode mudar rapidamente durante o período seco.

Incêndios

O avanço dos focos detectados por satélite ocorre paralelamente a grandes incêndios registrados na Região Metropolitana de Manaus. Em Iranduba, um incêndio florestal que começou na quarta-feira (23) se espalhou por uma área de vegetação e mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas. O fogo foi controlado nesta quinta, segundo nota do Corpo de Bombeiros.

Dois dias antes, na terça-feira (22), outro incêndio de grandes proporções atingiu vegetação nas proximidades da Ponte Jornalista Phelippe Daou, a Ponte Rio Negro, também exigindo atuação dos bombeiros. Na mesma noite, uma ocorrência de natureza diferente mobilizou a corporação na Avenida Constantino Nery, em Manaus, onde um ônibus articulado foi consumido pelo fogo.

Amazonas tem 208 brigadistas federais

Em resposta aos questionamentos sobre a atuação federal na região, o MMA informou que 208 brigadistas vinculados a órgãos ambientais federais estão mobilizados no Amazonas.

Desse total, 162 são do Ibama e atuam prioritariamente na proteção de Terras Indígenas e Projetos de Assentamento. Outros 46 são do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e trabalham em Unidades de Conservação federais.

O governo também informou ter montado uma operação específica no sul do Amazonas, região que concentra áreas críticas, com reforço de pessoal, veículos e equipamentos.

Em âmbito nacional, a estrutura federal disponível em 2026 reúne 4.410 brigadistas, 19 helicópteros, 18 aviões destinados ao lançamento de água, uma aeronave para transporte de brigadistas, 27 veículos ou equipamentos de combate, duas vilas operacionais e seis postos de comando reforçados em regiões consideradas estratégicas.

O MMA informou ainda que R$ 521 milhões foram descentralizados para estruturar os estados da Amazônia Legal, do Cerrado e do Pantanal para ações relacionadas aos incêndios. O montante engloba o Amazonas, mas a resposta do Ministério não especifica quanto desse total foi destinado exclusivamente ao estado.

Outros R$ 32 milhões foram descentralizados para municípios da Amazônia e do Pantanal desenvolverem ações de prevenção e combate aos incêndios florestais. No Amazonas, Apuí, Manicoré e Lábrea estão incluídos na iniciativa.

Além do Ciman, que realiza reuniões às segundas, quartas e sextas-feiras, o Governo Federal mantém a Sala de Situação dos Incêndios, vinculada à Casa Civil da Presidência da República, e o Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo (Comif).

Fogo está proibido no Amazonas

Em meio ao período mais crítico, o uso do fogo permanece proibido em todo o Amazonas por 120 dias, conforme o Decreto Estadual nº 55.339/2026. A restrição alcança atividades como limpeza de terrenos, manejo agrossilvipastoril, renovação de áreas, eliminação de resíduos vegetais e técnicas de queima controlada.

O Ministério recomenda que a população não utilize fogo durante o período seco e alerta que o emprego sem autorização ou em desacordo com a legislação pode resultar em sanções.

Foto: frame – corpo de bombeiros

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