Indígena Sateré-Mawé defende dissertação no Inpa com dados inéditos sobre espécies de cogumelos 

O estudante do Programa de Pós-Graduação em Ecologia, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Tyson Ferreira-Sateré, pertence à etnia Sateré-Mawé e defendeu sua dissertação de mestrado com um feito inédito para a ciência: o consumo de 10 espécies de cogumelos comestíveis ainda não registradas para povos amazônicos. Por meio de trabalho de campo, documentação fotográfica, identificação taxonômica e análises laboratoriais, Tyson constatou o primeiro registro de Cookeina tricholoma no município de Barreirinha, conhecido pelos Sateré-Mawé como Kusiú e more, o “cogumelo cuxiú de nariz vermelho”.

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Na pesquisa, o biólogo detalhou que a espécie é comum nos trópicos e pertence ao filo Ascomycota, diferente da maioria dos cogumelos comestíveis mais conhecidos: os Basidiomycota. O cogumelo Cookeina tricholoma tem formato semelhante a uma pequena cuia, com presença de “pelos” na superfície externa e coloração alaranjada, podendo crescer rente ao substrato ou apresentar estipe (um “pezinho”). O fungo é bastante utilizado na alimentação da comunidade Sateré-Mawé, tradicionalmente preparado no formato de pukecas (um recipiente feito com folhas de bananeira, utilizado para assados), que são servidas em comemorações internas da aldeia e em eventos abertos ao público.

Segundo Tyson, nos últimos 50 anos, apenas 35 cogumelos comestíveis tinham sido registrados em nível de espécie no contexto etnomicológico da Amazônia brasileira, principalmente entre o povo Yanomami. Com o estudo, o número foi ampliado para 45. A importância dos cogumelos vai além da alimentação, ela se apresenta nos aspectos culturais, econômicos e ecológicos, já que os fungos também atuam na decomposição de galhos e troncos, contribuindo para a reciclagem de nutrientes da floresta.

“A minha maior surpresa foi saber que há mais de 350 anos o povo Sateré-Mawé tem contato com jesuítas, naturalistas e diversos pesquisadores, mas o conhecimento etnomicológico deles ainda não havia sido registrado. Estou muito feliz que o próprio provedor do conhecimento está fazendo esta história”, comemora a pesquisadora do Inpa e orientadora do trabalho, Noemia Ishikawa, que é líder do grupo de pesquisa Cogumelos da Amazônia.

Com o título de “Etnomicologia sobre o uso de cogumelos na alimentação do povo Sateré-Mawé, com foco especial nas espécies de gênero Cookeina, na região do baixo Rio Andirá, Amazonas”, a dissertação foi avaliada e aprovada por unanimidade pela pesquisadora do Inpa, Sônia Alfaia, pelo arqueólogo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Carlos Augusto da Silva, e pela coordenadora do Núcleo de Biotecnologia do Centro de Estudos Superiores de Parintins e pesquisadora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Cynara Carmo Bezerra.

Protagonismo indígena

Nascido em Manaus e criado na comunidade Ponta Alegre, terra indígena Andirá-Marau, município de Barreirinha, no Amazonas, Tyson Ferreira-Sateré conta que sua principal motivação para a pesquisa foi valorizar o conhecimento tradicional Sateré-Mawé e contribuir para a conservação biocultural da floresta amazônica. Ele se emociona ao falar da conclusão desta etapa acadêmica. “Este momento representa uma grande conquista pessoal e familiar. Concluir o mestrado com base nos nossos próprios conhecimentos tradicionais, valorizando a floresta em pé — que é parte fundamental da nossa identidade e modo de vida — é algo muito significativo para mim e para o meu povo. É a prova de que é possível fazer ciência a partir das nossas raízes, sem abrir mão da nossa cultura”, ressalta.

O reconhecimento também vem da sua orientadora, Noemia Ishikawa, que elogiou a forma como o mestrando trouxe o conhecimento tradicional para dentro do Inpa, juntando os saberes da Amazônia, estabelecendo o diálogo com a ciência – experimentos e equipamentos, como a microscopia eletrônica de varredura – pois tudo isso colaborou para a qualidade de sua produção científica. “As pessoas estudam, geralmente, os alimentos e os costumes das comunidades indígenas em seus artigos. Hoje tivemos uma grande virada de chave na ciência, onde o próprio indígena faz a sua própria ciência, levando-a de volta para a sua comunidade. Espero que o exemplo dele seja seguido por muitos, tanto para virem estudar, como ele está fazendo, quanto para retornar à comunidade com as suas devolutivas e com seus conhecimentos”, observou a orientadora. 

 Apoio 

Tyson Ferreira-Sateré teve bolsa de estudo da PDPG-Capes/Fapeam e o desenvolvimento das atividades de campo e laboratoriais do CNPq receberam apoio financeiro por meio dos projetos “Projeto Diálogos multiculturais” – Chamada PPBio 2023, “Programa de Capacitação e Formação de Recursos Humanos em Taxonomia Biológica – Protax” – Chamada CNPq/Confap-FAPs 2024, e a “Rede Fungo Pan-Amazônia” – Chamada pública MCTI/CNPq N. 03/2025 – Pró-Amazônia, CNPq, acrescentou a orientadora.

Ao destacar o papel essencial do Inpa nessa caminhada, o agora mestre destaca as políticas de ações afirmativas do Programa de Pós-Graduação em Ecologia, que possibilitaram seu ingresso no mestrado e ampliaram sua visão sobre as diferentes abordagens e metodologias da área. “Sou muito grato pelo apoio institucional, pelo alinhamento e abertura da direção do instituto, por meio do diretor e professor Henrique Pereira e da pesquisadora Sonia Alfaia, em relação às pautas e às necessidades dos estudantes indígenas. A ciência também é nosso espaço. Podemos e devemos ocupar esses lugares, transformar nossos saberes em pesquisa e mostrar ao mundo a força do conhecimento indígena”, completou. 


Assessoria de Comunicação – ASCOM

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