Vanessa Brandão

Família não é inimiga

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Quando a crítica é mal formulada e rasa, ela gera um problema justamente para o que pretendia resolver. A fantasia “Família em Conserva”, da escola de samba Acadêmicos de Niterói, é um presente para a oposição ao governo Lula. Eu sou uma mulher progressista e fui criada em um lar com papai, mamãe e quatro filhos. A fantasia é ilustrada justamente por uma família semelhante à minha e à de tantos outros companheiros com inclinações à esquerda. O próprio homenageado pela escola foi casado por décadas com a mesma esposa, quando viúvo, casou-se novamente. Lula sempre teve sua “família em conserva”. A crítica à estrutura familiar ainda vai nos levar, aliás, já nos levou a derrotas acachapantes. Por pouco retomamos marcos civilizatórios e seguimos sendo uma democracia.

Por óbvio, uma pessoa com o mínimo de senso crítico entende a intenção da escola: a crítica faz um alerta contra uma defesa cega da estrutura familiar, mesmo que em seu interior haja violência, abusos e traições. Ora, então que se critiquem as atitudes, os sujeitos que praticam o abuso e a violência. Deixem as famílias em paz. “Ah, mas a escola está criticando o conservadorismo que só permite e exalta um tipo de família, aquela constituída por um homem e uma mulher”.

Então, que se faça isso de forma inteligente, pedagógica e politicamente responsável. A escola deveria repaginar sua fantasia e, no lugar de uma crítica genérica à chamada família tradicional, exaltar também as famílias formadas por mães solo e seus filhos, por casais homoafetivos e seus filhos, por avós que criam netos, por arranjos comunitários que sustentam vidas inteiras nas periferias deste país. Aí sim teríamos uma crítica justa, uma crítica que amplia em vez de afastar, uma crítica que dialoga com o Brasil real.

Quando se joga uma crítica indistinta à família, o que se produz não é consciência, é ruído. E ruído, em tempos de disputa simbólica, vira capital político para quem está do outro lado. A família é, gostemos ou não, o valor mais transversal da sociedade brasileira. Não pertence à direita, não pertence às igrejas, não pertence ao conservadorismo. A família é um território afetivo, material e simbólico do povo.

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Passei a vida inteira dialogando com pessoas do campo progressista que organizam suas rotinas em torno do cuidado com os filhos, que abrem mão de ascensão profissional para garantir presença, que sustentam lares com salários apertados e jornadas exaustivas. Conheço centenas de mulheres de esquerda que lutam diariamente para proteger os seus, para educar, para alimentar, para manter viva a dignidade dentro de casa. Para essas mulheres, a família não é um slogan moral, é o sentido da vida.

Criticar a família de forma abstrata é ignorar essa realidade concreta. É esquecer que, numa sociedade capitalista que nos cobra produtividade incessante e oferece pouco suporte coletivo, o núcleo familiar ainda é, para a maioria, o único espaço de proteção possível. É ali que se compartilha o pouco que se tem, que se cuidam das crianças, dos idosos, dos doentes, que se constrói algum sentido de pertencimento.

O que precisa ser criticado, com firmeza e sem hesitação, são os sujeitos que cometem violência, que praticam abusos, que utilizam o discurso da preservação da família como escudo para manter relações de poder e silenciamento. O problema nunca foi a existência da família, mas o uso perverso que alguns fazem dela.

Se a intenção era denunciar o conservadorismo que tenta impor um único modelo familiar como legítimo, então que se faça isso pela via da ampliação de direitos e representações. Que se mostrem, com orgulho, as múltiplas formas de família que já existem e resistem neste país. Que se diga, todas são dignas, todas merecem proteção, todas são parte do Brasil real.

Isso é disputa simbólica qualificada, isso é pedagogia política. Atacar a família de forma genérica é um tiro no pé. Mostrar que somos e amamos todos os sentidos e formatos de família é exaltar a realidade brasileira, a nossa realidade pessoal. Porque, no Brasil real, é dentro das famílias que o povo aprende a resistir.

Foto: Frame / Internet

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