O Teatro Amazonas recebe amanhã, 3 de novembro, a celebração oficial do título de Patrimônio Mundial Cultural da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), reconhecimento que colocou pela primeira vez a Região Norte do Brasil na lista mundial da organização na categoria cultural. A cerimônia está marcada para as 19h, no próprio teatro, no Centro de Manaus, e será aberta gratuitamente ao público.
O reconhecimento foi aprovado em 27 de julho pelo Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, durante a 48ª sessão do colegiado. A decisão internacional não contempla o Teatro Amazonas isoladamente: ele integra a inscrição denominada “Teatros da Amazônia”, ao lado do Theatro da Paz, em Belém.
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Também fazem parte do patrimônio reconhecido o Largo de São Sebastião, em Manaus, e a Praça da República, na capital paraense. Os quatro espaços formam um bem seriado, diferentes componentes reunidos sob um único título de Patrimônio Mundial.
A Unesco considerou que os dois conjuntos preservam características capazes de demonstrar o chamado Valor Universal Excepcional, requisito necessário para que um patrimônio seja incluído na lista mundial.
Construído no período de transformação econômica e urbana provocado pela exploração da borracha, o Teatro Amazonas foi inaugurado em 1896 e se tornou um dos principais símbolos arquitetônicos de Manaus.
O Theatro da Paz, inaugurado em 1878, desempenhou papel semelhante em Belém. Na avaliação da Unesco, as duas casas materializam as mudanças pelas quais passaram as principais cidades amazônicas quando a região foi incorporada aos grandes circuitos internacionais de comércio durante o auge da economia da borracha.
A riqueza gerada naquele período financiou projetos de modernização urbana inspirados em referências europeias. Os teatros tornaram-se expressões monumentais desse processo, mas adquiriram, ao longo do século XX, funções culturais que ultrapassaram o contexto social e econômico no qual foram construídos.
A decisão da Unesco destaca justamente essa transformação: espaços originalmente associados às ambições das elites da época passaram a funcionar como instituições de uma vida cultural mais ampla e plural.
No caso de Manaus, o organismo internacional também reconhece a importância do Largo de São Sebastião na relação histórica e urbana com o Teatro Amazonas.
Arquitetura europeia encontrou elementos da Amazônia
Um dos fundamentos utilizados para o reconhecimento está na maneira como influências internacionais foram reinterpretadas na região.
Segundo a Unesco, arquitetos, artistas e artesãos brasileiros e europeus participaram da construção e decoração dos teatros, combinando linguagens arquitetônicas e técnicas trazidas da Europa com materiais e referências amazônicas.
O resultado, para o Comitê do Patrimônio Mundial, representa uma troca de valores entre a Europa e a Amazônia no final do século XIX e início do século XX.
O Teatro Amazonas reúne elementos do ecletismo europeu, estruturas metálicas industriais e materiais associados à região. A própria permanência do edifício como espaço de apresentações artísticas também foi considerada relevante para comprovar sua autenticidade.
O teatro continua exercendo sua função cultural, ao mesmo tempo em que abriga atividades de formação artística e recebe visitantes de diferentes partes do Brasil e do mundo.
Proteção existe desde 1966
O reconhecimento internacional amplia uma proteção que já existe há décadas.
O Teatro Amazonas e o Largo de São Sebastião são protegidos em nível federal desde 1966. O Theatro da Paz e a Praça da República, em Belém, contam com proteção federal desde 1963.
Ao analisar a candidatura, a Unesco considerou que os conjuntos preservam características suficientes de integridade e autenticidade para representar o período histórico que justificou a inscrição.
A chancela mundial, no entanto, não representa apenas prestígio. O reconhecimento cria também compromissos de conservação e gestão.
A manutenção dos atributos que justificaram a entrada na lista passa a ser responsabilidade permanente do Brasil. O crescimento da visitação e da exposição internacional dos monumentos também exige planejamento para que o aumento do turismo seja conciliado com a preservação dos edifícios históricos.
Candidatura
O dossiê oficial da candidatura dos “Teatros da Amazônia” foi entregue à Unesco em 31 de janeiro de 2025. O documento foi elaborado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com o Ministério das Relações Exteriores, além dos governos do Amazonas e Pará e das prefeituras de Manaus e Belém.
A proposta foi submetida à avaliação técnica internacional até chegar ao Comitê do Patrimônio Mundial, responsável pela decisão definitiva.
Ao aprovar a candidatura em julho deste ano, o colegiado inscreveu os “Teatros da Amazônia” com base em dois critérios da Convenção do Patrimônio Mundial.
Um deles reconhece a troca significativa de valores humanos expressa pela arquitetura e pelas artes. O outro considera os teatros exemplos relevantes de uma etapa da história: a integração da Amazônia aos circuitos internacionais do capitalismo industrial por meio da exploração e exportação da borracha.
A celebração em Manaus começará antes da cerimônia oficial. A partir das 16h, o Largo de São Sebastião receberá atrações culturais e uma Feira de Economia Criativa.
Às 18h, está prevista uma coletiva de imprensa no foyer do Teatro Amazonas. A solenidade oficial começa às 19h.
Participarão representantes do Iphan, da Unesco, do Ministério das Relações Exteriores e dos governos do Amazonas e do Pará, além de representantes das duas casas de espetáculos.
Após a cerimônia, a programação terá o espetáculo cênico-musical “Sons do Amazonas”, com a AmazonasBand, intérpretes amazonenses e o Balé Folclórico do Amazonas.
Tanto a cerimônia quanto o espetáculo terão entrada gratuita. A solenidade materializa em Manaus uma decisão tomada a milhares de quilômetros da Amazônia em julho. Mais de 130 anos depois de abrir as portas em uma cidade transformada pela riqueza da borracha, o Teatro Amazonas passa a carregar uma distinção que ultrapassa as fronteiras do estado: ao lado do Theatro da Paz, integra oficialmente um patrimônio que, para a Unesco, possui valor para toda a humanidade.
Foto: Semcom






