A crise da fumaça tóxica causada por incêndios florestais atingiu níveis extremos no Amazonas na manhã deste sábado (17). Em Autazes, uma estação do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registrava 568,8 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de material particulado fino (PM2,5). O índice é 2.175% superior aos 25 µg/m³ que marcam o teto da faixa de qualidade do ar classificada como “boa” na escala utilizada pela plataforma. A capital, Manaus, não ficou atrás, registrando qualidade do ar péssima, com concentração de poluição alarmante em vários bairros, como Coroado e Distrito Industrial, na zona Leste. Na prática, índices acima de 125 são considerados péssimos, com riscos elevados à saúde da população.
O quadro crítico se espalhava pela capital e pelo interior. Urucurituba registrava 504,7 µg/m³ , ou, 1.919% acima do teto da faixa boa, enquanto Manaquiri chegava a 446,8 µg/m³, 1.687% acima. Careiro da Várzea aparecia com 272,4 µg/m³.

Leia também: Manaus continua encoberta por fumaça; saiba quais os cuidados essenciais para se proteger
Em Manaus, o cenário também era crítico. Entre os pontos exibidos no mapa do Selva por volta das 5h53, havia registros de 441,4 µg/m³, 432,2 µg/m³, 413,6 µg/m³, 409,5 µg/m³, 380,7 µg/m³, 375,9 µg/m³, 358,5 µg/m³, 347,6 µg/m³ e 301,3 µg/m³. Outro ponto apresentava 179,5 µg/m³. Na escala mostrada pelo sistema, a categoria “péssima” começa em 125 µg/m³ e a representação gráfica termina em 160 µg/m³. Ou seja: várias medições desta madrugada ultrapassavam em mais de duas ou três vezes o topo da escala exibida.

O agravamento ocorre depois de dias consecutivos de exposição à fumaça. São pelo menos dez dias sob condições insalubres. As concentrações variam ao longo do dia, conforme vento, chuva, fontes emissoras e dispersão das partículas, mas a sequência de medições elevadas evidencia a persistência da crise.
Pará lidera focos e Amazonas aparece em quarto
Os dados mais recentes exibidos pelo Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que o problema ultrapassa as fronteiras do Amazonas. No período de 48 horas entre quinta (15) e sexta-feira (16), o Pará liderou o país, com 373 focos de calor. Logo depois aparecem Maranhão, com 358, Bahia, com 267, e Amazonas, com 191.

No ranking de municípios mostrado pelo Inpe para o mesmo período, Uruará e São Félix do Xingu, região habitada por várias comunidades indígenas, ambos no Pará, aparecem nas duas primeiras posições. Itacoatiara, no Amazonas, surge em terceiro. Entre os dez primeiros também aparecem Apuí e Novo Aripuanã, no Amazonas, além de Mojuí dos Campos, Aveiro, Placas e Altamira, no Pará.
A concentração de queimadas no Pará tem chamado atenção desde o início do mês. Até o dia 17, o estado acumulava 17.640 focos de queimadas, número 127% acima do registrado no mesmo período de 2025. Já o Amazonas, acumula 8.087 focos, aumento de 115% na comapração com o ano passado.
Autoridades locais já apontaram que a fumaça que chega a Manaus não tem uma única origem. A Prefeitura informou nesta semana que parte dela é proveniente de queimadas no interior do Amazonas, principalmente nas regiões Leste e Metropolitana, além de incêndios em outros estados. Os incêndios no Pará também têm influenciado para o cenário que se alastra no Amazonas, conforme autoridades.
A Defesa Civil emitiu alerta sobre a poluição e a recomendação de especialistas é pelo uso de máscaras faciais como a N95, que confere proteção maior, evitando a inalação de partículas de poluição.
Poluição piora mesmo com força-tarefa
O quadro deste sábado chama atenção porque ocorre em meio a uma operação que reúne estruturas municipais, estaduais e federais para tentar controlar os incêndios. O Governo Federal mobilizou 11 aeronaves e 290 brigadistas para o Amazonas. A estrutura anunciada inclui aviões Air Tractor, aeronaves KC-390, helicópteros e um Caravan de apoio logístico. O trabalho é realizado em articulação com equipes estaduais e municipais.
Cerca de mil bombeiros e brigadistas estavam envolvidos na operação e que outros 153 brigadistas florestais seriam selecionados pelo Programa Floresta em Pé. As ações incluem ainda fiscalização ambiental, monitoramento por satélite, emprego de drones e operações em dezenas de municípios.
Nesta semana, o governo federal também reforçou a resposta na área da saúde. A Força Nacional do SUS atua no Amazonas e, até quinta-feira, o Ministério da Saúde havia identificado 12 municípios que necessitavam de algum tipo de suporte nos serviços de saúde em razão da emergência.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, esteve em Manaus por duas vezes nos últimos dias, acompanhando a crise ambiental pessoalmente e fazendo sobrevoos na região. Entre as medidas anunciadas, está o acionamento da Polícia Federal para investigar e responsabilizar suspeitos de provocar os incêndios, causados, em grande parte, por ações humanas criminosas.
Fiocruz alerta para risco de infarto, AVC e doenças respiratórias
Uma nota técnica divulgada na semana passada pelo Observatório de Clima e Saúde do Icict/Fiocruz alertou especificamente para a deterioração da qualidade do ar no Amazonas. A instituição destacou que Manaus vinha registrando concentrações de PM2,5 muito superiores aos valores recomendados pela Organização Mundial da Saúde.
O PM2,5 é formado por partículas extremamente pequenas. Segundo a Fiocruz, elas conseguem penetrar profundamente nos pulmões e, em determinadas condições, alcançar a circulação sanguínea. A exposição está associada ao agravamento da asma e ao aumento do risco de doenças respiratórias e cardiovasculares, incluindo infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes estão entre os grupos que exigem maior atenção.
A Fiocruz Amazônia recomenda reduzir a exposição durante episódios de fumaça intensa, com medidas como uso de máscaras, hidratação e suspensão temporária de exercícios físicos ao ar livre. A instituição também reforça a necessidade de acompanhamento permanente da qualidade do ar, sobretudo durante a temporada de queimadas.






