Vanessa Brandão

Artigo – Entre o zap e o fim do Mundo: a atenção em ruínas

A cabeça de um millennial em junho de 2026 vive, sem dúvida alguma, uma overdose de informações diárias. Os memes da política nacional e local, as aparições cada vez mais frequentes de possíveis objetos voadores não identificados, a Copa do Mundo de Futebol se aproximando, os desdobramentos do caso Master, as novas tarifas impostas ao Brasil pelo presidente Trump.

Os fins e recomeços de namoros das subcelebridades, a dívida quase sempre em aberto com a atividade física regular. As cobranças das escolas, que demandam mais dos pais do que dos alunos, jogando-nos em polvorosos trabalhos escolares, a inteligência artificial fazendo relatórios, consultorias, mentorias gratuitas, dispensando em boa parte os humanos. O capitalismo tardio de Ernest Mandel se concretiza, com desdobramentos inimagináveis e muito cansaço indescritível.

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Indescritível por não conseguirmos listar, muitas vezes, o que nos apoquenta antes do sono bater, já que as informações recebidas conscientemente durante o dia nem são processadas direito, e já passamos a outra, seja no zap, no Instagram, nos widgets. Os temas, no entanto, vão acrescentando camadas às nossas preocupações subconscientes e se somam aos problemas reais da vida: a casa que tem sempre uma coisinha para consertar, limpar, os amigos a quem nem conseguimos mais dar atenção, os familiares que amamos com problemas que nem são nossos, mas, se os amamos, passam também ao nosso consciente inconsciente preocupado.


E não trago soluções prontas, só trago o desabafo e compartilho o desafio de estar tentando descobrir como mobilizar um minuto da atenção das pessoas para temas sérios, como a importância de escolher bons políticos para compor nosso Congresso Nacional. Como mostrar que precisamos de mais mulheres capacitadas para ocupar posições decisórias, como mostrar a importância de escolher representantes legítimos e não o perfil clássico do político que herda capital político dos familiares, herda apoio de uma classe que já tem tudo, de um grupo que quer estar no Congresso para criar leis em benefício do seu próprio grupo, sem um pensamento coletivo sobre o que é importante para contornar nossos problemas históricos.


Talvez tenha que falar e dançar ao mesmo tempo, ou quem sabe pular de uma árvore em frente à câmera, mas também colocar uma melancia na cabeça. Penso, acho burlesco, caricato, e passo para outro núcleo informacional, deixando no inconsciente mais um incômodo, mais uma preocupação.

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