A dor faz parte da experiência humana e pode surgir após uma pancada, cirurgia ou infecção. Nesses casos, é considerada uma resposta natural do corpo. No entanto, quando o desconforto persiste por dias ou até meses, deixa de ser algo normal e passa a ser um sinal de alerta. Segundo a professora Sheila Ramos, docente do curso de Fisioterapia da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Manacapuru, a persistência da dor é um dos principais indicativos de que algo não vai bem.
“Quando a dor continua por dias ou meses, é importante procurar um profissional de saúde para uma avaliação”, orienta. De acordo com a especialista, negligenciar o problema pode trazer consequências mais sérias. “Uma dor aguda pode evoluir para uma dor crônica quando não é tratada adequadamente”, explica.
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Cerca de 30% da população mundial convive com dor crônica, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Além de comprometer a qualidade de vida, esse tipo de dor está associado a transtornos como ansiedade e depressão. Uma revisão de estudos da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, aponta que até 40% dessas pessoas também apresentam essas condições.
No Brasil, o cenário é semelhante. Dados do Ministério da Saúde indicam que 37% dos brasileiros com mais de 50 anos sofrem com dor crônica e, entre eles, cerca de 30% recorrem ao uso de opióides para aliviar os sintomas. De acordo com especialistas, a dor é considerada crônica quando persiste por mais de três meses e costuma ter tratamento mais complexo.
Entre as dores mais comuns que costumam ser ignoradas pela população estão as dores de cabeça, nas costas, musculares, articulares e abdominais. Apesar de frequentes, esses sintomas podem evoluir e comprometer a qualidade de vida.
A médica e professora Bruna Borges, especialista em cuidados paliativos e coordenadora do curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara, chama atenção para o conceito de “dor total”, que amplia a compreensão sobre o problema. “A dor não é um sintoma isolado. Ela envolve dimensões física, emocional, social e espiritual, que interagem entre si”, explica.
Na prática, isso significa que a dor pode ter diferentes origens e manifestações. A dor física está relacionada a lesões, inflamações ou problemas no corpo. Já a dor emocional envolve sentimentos como ansiedade, medo e tristeza, que podem intensificar o desconforto. A dor social está ligada a fatores como isolamento, perda de renda ou mudanças no papel familiar e profissional. Por fim, a dor espiritual diz respeito a questões existenciais, como o sentido da vida, sofrimento e finitude.
Segundo Bruna Borges, fatores como ansiedade, medo, isolamento social e conflitos pessoais também influenciam diretamente a percepção da dor, o que exige uma abordagem mais ampla no cuidado.
Nem toda dor exige intervenção imediata, mas alguns sinais devem chamar atenção. Sheila Ramos destaca que é importante observar fatores como intensidade, duração e frequência. “Quanto mais tempo a dor persiste e quanto mais limita as atividades do dia a dia, maior é a necessidade de avaliação profissional”, afirma. Outros sinais incluem dor que piora com o tempo, dificuldade de movimentação e sintomas associados, como formigamento ou fraqueza.
Segundo Bruna Borges, o tratamento da dor deve ser individualizado e considerar o contexto de cada paciente. “A gente não trata só o sintoma, mas a história daquela pessoa e o impacto da dor na vida dela”, explica. Ela destaca que o cuidado envolve tanto o uso de medicamentos — seguindo protocolos como a escada analgésica da OMS — quanto estratégias não farmacológicas, como apoio psicológico, práticas integrativas e reabilitação.
Nesse contexto, a fisioterapia tem papel fundamental tanto na prevenção quanto no tratamento das dores. “A abordagem fisioterapêutica busca prevenir lesões antes que elas ocorram, além de aliviar a dor e melhorar a funcionalidade do paciente”, afirma Sheila Ramos.
Hábitos do dia a dia estão entre os principais responsáveis pelo surgimento de dores. O sedentarismo e o uso excessivo de celular, por exemplo, estão associados a grande parte das queixas na região lombar e cervical. A má postura, especialmente durante longos períodos em frente a telas, contribui para a sobrecarga muscular e pode desencadear dores recorrentes.
O uso frequente de medicamentos para dor também exige atenção. Embora possam trazer alívio momentâneo, eles não tratam a causa do problema e ainda podem provocar efeitos colaterais. “Além de mascarar a dor, o uso contínuo de medicamentos pode causar gastrite, úlceras e até agravar outras patologias”, alerta Sheila Ramos.
A recomendação é não esperar a dor se tornar intensa ou incapacitante para buscar atendimento. “O ideal é procurar um fisioterapeuta assim que surgirem sinais de dor persistente, desconforto funcional ou limitação de movimento”, orienta.
Para as especialistas, entender a dor como um sinal do corpo é o primeiro passo para evitar complicações. “Sentir dor não deve ser normalizado. O corpo sempre está tentando comunicar que algo precisa de atenção”, conclui Sheila Ramos.






