Cinco meses após a morte de Benício Xavier, de 6 anos, ocorrida no Hospital Santa Júlia, em Manaus, a unidade privada de saúde passou a investir em publicidade em meio à crise de reputação provocada pelo caso. A criança morreu após receber uma superdose de adrenalina, administrada de forma equivocada durante atendimento para uma suspeita de laringite.
O caso é investigado pela Polícia Civil do Amazonas. Entre as hipóteses apuradas está a de homicídio com dolo eventual, decorrente de possível erro médico.
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Benício morreu na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital. A prescrição médica foi assinada pela plantonista Juliana Brasil, conforme o inquérito conduzido pelo delegado Marcelo Martins, titular do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP).
De acordo com as investigações preliminares, foram identificadas falhas estruturais no hospital, incluindo insuficiência de profissionais em setores considerados essenciais e ausência de insumos para atendimentos de urgência. O inquérito também aponta possíveis falhas no cumprimento de protocolos de segurança do paciente, exigidos em unidades de alta complexidade.
Um dos sócios da unidade, o médico urologista Édson Sarkis, foi ouvido no inquérito. A autoridade policial não descarta o indiciamento de integrantes da direção do hospital no caso.
Crise
Após a repercussão do caso, o hospital passou a veicular peça publicitária com o objetivo de reforçar sua imagem institucional.
No sábado, 25, um anúncio foi exibido no intervalo de um telejornal da Rede Amazônica, afiliada da TV Globo no Amazonas.
Na peça, Édson Sarkis apresenta a trajetória da instituição, fundada há mais de 40 anos, e destaca resultados considerados positivos pela unidade. Ele afirma que “a segurança aqui não é apenas uma promessa, é um pacto inegociável”.

Sem mencionar diretamente o caso Benício, Sarkis declara ainda: “Quando algo não sai como deveria, aprender custa caro, mas transforma para sempre. E quando o cuidado evolui, a vida agradece. Hospital Santa Júlia: mais forte e mais preparado”.
Entenda o caso
Benício Xavier de Freitas deu entrada no Hospital Santa Júlia no dia 22 de novembro de 2025, andando e consciente, com quadro de tosse seca e suspeita de laringite.
Ele foi atendido pela médica Juliana Brasil, que não possui especialização em pediatria. Após a consulta, foi prescrita a administração de adrenalina por via intravenosa. A medicação foi aplicada pela técnica de enfermagem Raiza Bentes Paiva, apesar de questionamentos feitos pela mãe da criança.
Após a administração do medicamento, Benício apresentou dor no peito e mal-estar súbito. Ele foi transferido entre setores da unidade até ser encaminhado à UTI, onde sofreu sucessivas paradas cardiorrespiratórias e morreu.
O atestado de óbito foi posteriormente retificado para incluir como causa da morte “intoxicação por drogas que afetam o sistema nervoso central”.
A médica e a técnica de enfermagem foram afastadas de suas funções após a repercussão do caso.
A Polícia Civil aguarda laudos do Instituto Médico Legal (IML) para concluir o inquérito e definir eventuais indiciamentos.
A defesa da médica afirma que a prescrição teria sido alterada automaticamente pelo sistema de gestão hospitalar, hipótese descartada pela polícia após perícia.
Após prestar depoimento no âmbito do inquérito policial, Édson Sarkis declarou lamentar a morte da criança e afirmou que o hospital adota protocolos de segurança, incluindo dupla checagem de medicamentos, além de contar com equipe composta por enfermeiros e farmacêuticos.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa da técnica de enfermagem.






